terça-feira, 12 de agosto de 2008

Dificuldades na aprendizagem da escrita: conceitos, características e causas.




Vicente Martins


Iniciamos nosso texto com este relato de disgrafia de um informante do sexo feminino de 35 anos

“ Sempre tive certa dificuldade na escrita, porém de uns 5 anos pra cá minha coordenação motora para a escrita manual (cursiva) praticamente zerou. Já houve casos de não conseguir sequer assinar meu nome, se tenho que anotar um número de telefone que seja tenho que fazer várias vezes e mesmo assim fica ilegível, evito até de preencher um cheque, pois quase sempre perco algumas folhas. Não consigo fazer a devida pressão da caneta sobre o papel, minha mão oscila em cima da folha e parece flutuar sobre esta, quando sai alguns traços saem levemente e totalmente ilegíveis. Entretanto não tenho nenhuma dificuldade para digitar, onde tenho até bastante rapidez, também não tenho dificuldade de mexer com coisas pequenas que requer presteza nos movimentos. Existe alguma saída para melhora desta situação? Exercícios específicos etc... Obrigado pela atenção”

O relato do caso acima indica claramente, pelos indícios, uma síndrome disgráfica: ( 1) O informante apresenta dificuldade na coordenação motora para a escrita manual (cursiva); (2) dificuldade de escrever palavras ou frases simples de rotina como assinar o nome ou anotar um número de telefone ou preencher cheque; (3) dificuldade de fazer a devida pressão da caneta sobre o papel; (4) mão oscilante sobre o papel ao traçar os grafemas (letras, sinais gráficos) da língua materna e (5) dificuldade de mexer com coisas pequenas que requerem presteza nos movimentos.

No relato acima, não poderíamos falar em agrafia, isto é, a impossibilidade total de escrever. A disgrafia é, o termo psicolingüístico que indica a dificuldade parcial, porém, não a impossibilidade para aprendizagem da escrita de uma língua. 2470.

A disgrafia pode ser definida, no campo da psicolingüística, como a incapacidade de exprimir as idéias por meio da escrita associada à afasia eresultante de uma lesão cerebral devida a um acidente vascular cerebral outraumatismo cerebral.

A disgrafia pode corresponder a outro tipo de distúrbio resultante deafasia, como, por exemplo, anomia ou agramatismo. Por vezes, surgem apenas erros
ortográficos de menor importância ou então dificuldades nas cópias ou nos ditados.

Os distúrbios relacionados com a escrita nem sempre estão associadoscom afasias. Podem dever-se, também, à falta de força na mão dominante, exigindouma reaprendizagem pela mão não dominante num processo lento que exige bom apoio e encorajamento.

De acordo com os psicolingüistas, a disgrafia se subdivide em: a ‘disgrafia específica’ ou propriamente dita, e ‘disgrafia motora’ . Na primeira delas não se estabelece uma relação entre o sistema simbólico e as grafias que representam os sons, as palavras e as frases.
A segunda forma de disgrafia ocorre quando a motricidade está particularmente em jogo, mas o sistema simbólico da língua, isto é, o sistema escrito da língua materna, não está afetado. Os psicolingüistas falam em discaligrafia, entendendo-a não somente como o resultado de uma alteração motora, mas também de fatores emocionais (restrição do eu, etc.), o que altera a forma dos grafemas, particularmente, os signos alfabéticos.
O termo disgrafia motora (discaligrafia) consiste na dificuldade de escrever em forma legível. Segundo os estudiosos, os indicadores mais comuns da discaligrafia são: micrografia; macrografia; ambas combinadas; distorções ou deformações; dificuldades nos enlaces; traçados reforçados, filiformes, tremidos; inclinação inadequada; aglomerações, etc.
A criança consegue falar e ler e as dificuldades ocorrem na execução de padrões motores para escrever letras, números ou palavras. Pode ocorrer defeito motor ou apenas na integração (neste caso a criança vê a figura, todavia, não sabe fazer os movimentos para escrever as letras). Geralmente estas crianças são hipotéticas, desequilibradas, disárticas (fala lenta).
Para os psicolingüistas, os casos em que ocorre um distúrbio importante da integração visual espacial e motricidade representam disfunção no lobo parietal e frontal. Quando há dificuldade apenas na produção de uma letra proporcional e legível a disfunção ocorre predominantemente no lobo frontal ou no cerebelo. Alguns autores chamam este último quadro de discaligrafia ou disgrafia motora. Esta situação não é um desleixo ocasional, e sim uma deficiência constante. Nesse caso, o educador, terapeuta ou familiar terá que ter esclarecimento sobre essa síndrome e o profissional que lida com disgráfico não obterá uma produção mais adequada repreendendo-se a criança.
Uma sugestão para intervenção em casos de disgrafia ou disgrafia pode ser a de elaboração de portfólio, que consiste numa coleção selecionada, em geral, dos trabalhos do educando, e que pode ser usada para avaliar o seu progresso na aprendizagem da escrita. Deve-se, pois, comparar a sua própria obra, para obter um parâmetro da sua melhor produção. Este deve ser o objetivo a ser alcançado e não a perfeição, que para esse aluno é inatingível. O professor deve trabalhar a conscientização do aluno para seu melhor desempenho e reforçá-lo positivamente sempre que a alcance

O psicólogo Jesús Nicasio García, em seu Manual de Dificuldades de Aprendizagem: linguagem, leitura, escrita e matemática (Artes Médicas, 1998), define as disgrafias como dificuldades específicas na aprendizagem da escrita. Por escrita, devemos entender o processo de escrita que envolve as práticas de produção de textos, em seus diversos gêneros literários ou discursivos, bem como a escrita ortográfica, isto é, a grafia das palavras que compõem o texto. Para Jesús Nicácio García (p.191), as disgrafias são dificuldades significativas no desenvolvimento das habilidades relacionadas com a escrita.


AS DIFICULDADES NA ESCRITA
Os indicadores que se consideram para a disgrafia recebem os mesmos nomes que os indicadores de dislexia, apenas observa-se que na primeira estes ocorrem na escrita (inversão, substituição, translação, omissão, agregado, etc.) e, na segunda, na leitura. São exemplos de disgrafia: (a) Inversão de letras - ne x en; areonautas x aeronautas; (b) - Inversão de sílabas - penvasa x pensava; (c) - Inversão de números - 89 x 98; 123 x 213; (d) - Substituição de letras - gogar x jogar; irnão x irmão; (e) - Substituição de sílabas - ponta x pomba; (f) - Substituição de palavras e substituição de números - menino x ninho; lindo x grande; 3225 x 325; (g) - Casos especiais de agregado: - Por reiteração: quando se agrega uma mesma letra, sílaba, palavra ou número (passassada por passada); (g) - Por translação: pode ser prospectiva ou retrospectiva; (h) - Prospectiva: Ex: “toma tosopa” por “toma sopa”.(i) - Retrospectiva: Ex. “mea aproximei” por “me aproximei”. (j) - Omissão de Letras - tabém x também; (l) - Omissão de sílabas - prinpal x principal; (m) - Omissão de palavras - por não voltar... x por favor, não voltar ; (n) Omissão de números - 32 x 302; (o) - Dissociação de palavra - ci ne x cine; (p) - Contaminação de letras - fortese x fortes; (q) - Contaminação de sílabas - sedeitou x se deitou; (r)- Contaminação de palavras - haviaúma x havia uma e (s) - Ignorância de uma grafia (dificuldade para evocar e representar uma grafia) - resíduo agráfico num sintoma disgráfico
Dificuldades gramaticais

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Adições de prefixos, sufixos e infixos (vogal ou consoante de ligação)
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Adições simples de nomes, verbos, adjetivos e advérbios
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Adições simples de preposições, pronomes, determinantes, quantificadores, conjunções ou advérbios.
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Alterações na ordem de palavras
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Omissões de nomes, verbos, adjetivos e advérbios
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Omissões de prefixos, sufixos e infixos (vogal ou consoante de ligação)
( )
Omissões de preposições, pronomes, determinantes, quantificadores, conjunções ou advérbios.
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Substituições de nomes, verbos, adjetivos e advérbios
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Substituições de prefixos, sufixos e infixos (vogal ou consoante de ligação)
( )
Substituições de preposições, pronomes, determinantes, quantificadores, conjunções ou advérbios.


Dificuldades fonológicas
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Substituição de morfemas
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Omissão de morfemas
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Substituição de fonemas
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Omissão de fonemas
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Substituição de sílabas
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Transposição de morfemas, fonemas, sílabas
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Conversão símbolo-som

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Dificuldades visoespaciais
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Confusão de letras
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Erros internos de detalhe
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Inversão de letras
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Lentidão de percepção visual
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Substituição de letras
( )
Transposição de letras

Disortografia
A Disortografia muitas vezes acompanha a Dislexia, mas pode também vir sem ela. É a impossibilidade de visualizar a forma correta da escrita das palavras. A criança escreve seguindo os sons da fala e sua escrita, por vezes, torna-se incompreensível. Não adianta trabalhar por repetição, isto é, mesmo que escreva a palavra vinte vezes, continuará escrevendo-a erroneamente. É preciso trabalhar de outras formas, usando a lógica quando isso é possível, a conscientização da audição em outros casos, como por exemplo: em “s”e “ss”, “i” e “u” etc.
A disortografia pode ser observada na realização do ditado onde se apresentam trocas relacionadas à percepção auditiva. Por exemplo: F por V (faca/vaca).
Essa disfunção ocorre no lobo temporal. Na escrita espontânea (por redação, interpretação de textos lidos ou ouvidos) há também envolvimento das áreas visuais (lobo parietal e occipital).

DISGRAFIA E AFASIA MOTORA

Há, do ponto de vista neurolingüístico, uma relação muito estreita entre os diversos tipos de disgrafia, disortografia e afasias. As afasias são distúrbios da linguagem devidos a lesões na área do cérebro envolvida no processamento da linguagem,que podem ocorrer em vários graus, afetando tanto a compreensão como a produção, quer ao nível da fala, quer ao nível da leitura/escrita. As lesões resultam dos acidentes vasculares cerebrais, tumores, doenças ou traumatismos cerebrais. Do ponto de vista estritamente clínico ou neurológico, as afasias classificam-se segundo a área do cérebro afetada pela lesão, enquanto do ponto de vista comportamental se tem em conta as disfunções psicológicas e lingüísticas ocorridas. É freqüente surgirem casos afásicos mistos que não permitem um diagnóstico clássico claro.

A disgrafia bem como a disortografia muitas vezes ocorrem em situação específica de afasia motora. Como se caracteriza a afasia motora? A afasia motora é caracterizada pela incapacidade de produção da linguagem, tanto falada como escrita. Contrário de afasia receptiva. Compreende a afemia e a agrafia. Aparece, por vezes, como sinônimo de afasia de Broca. Cada paciente (atenção médica) ou educando com necessidade educacional especial (atenção psicopedagógica) apresenta perturbações diferentes, conforme o tipo e a gravidade da sua lesão. A fala é descontínua, apresentando agramatismos e dificuldades na escolha de palavras.
DISGRAFIA E AS MANIFESTAÇÕES AGRÁFICAS

Agrafia está para a neurologia (atenção clínica) assim como a disgrafia está para a neuropsicologia, o que, viabiliza, pois, nesse caso, uma atenção psicopedagógica. A agrafia é perda da faculdade de exprimir as idéias por meio da escrita, devido à lesão na
prega curva ou na parte posterior da segunda circunvolução frontal. Trata-se de
um tipo de afasia expressiva (ou motora) ou tipo de afasia pura, segundo a
Escola de Boston. Nos casos mais graves, a agrafia pura, segundo a Psicolingüística, é uma afasia pura em que os pacientes manifestam problemas em escrever e em soletrar.
LINGUAGEM ESCRITA VERSUS LINGUAGEM ORAL

As dificuldades da linguagem oral, em geral, manifestam-se na linguagem escrita, durante a produção de textos, em seus diversos gêneros, bem como na escrita ortográfica. A psicolingüísta Alessandra del Ré, em seu livro. A aquisição da linguagem: uma abordagem psicolingüística (São Paulo: contexto, 2006) PHÉNERON, Christiane Phéneron, em um ensaio denominado “ Distúrbios da linguagem oral e da comunicação das crianças” (p 63-83,), afirma que aproximadamente de 7% a 8% das crianças apresentarão distúrbios na fala, sendo que 1% trata-se de casos sérios e persistentes por toda a vida e podem estar envolvidos: déficit sensorial ou motor e um quadro psicopatológico, não se relacionam a um déficit auditivo, a uma má formação dos órgãos fonadores, a baixa capacidade intelectual, lesão cerebral, distúrbio de desenvolvimento da linguagem oral, ou problemas afetivos e educativos. Esses distúrbios da linguagem foram classificados em duas vertentes e denominados síndromes, ou seja, disfunção que não tem cura.

]A vertente receptiva trata das dificuldades de compreensão, do que se ouve, mesmo que não existam problemas auditivos nas crianças. Já a vertente expressiva apresenta distúrbios na expressão, ás vezes, dislalias, quando, por exemplo, a criança troca uma letra por outra na palavra, isto é, um déficit no nível articulatório, ou no nível fonológico referindo-se a pronúncia, no morfossintático o nível lexical á alterado nas perturbações que afeta a lembrança das palavras, no nível semântico-pragmático, apresenta distúrbio na pronúncia.

As síndromes a serem relatadas não são relacionadas ao autismo: na síndrome fonológico-sintática, a criança possui um vocabulário limitado, não gosta de usar a oralidade. Trata-se de um problema morfossintático, ou seja, no arranjo das palavras no enunciado e a utilização de palavras gramáticas diferem das crianças normais.

A criança possui dificuldade em colocar conectivo e flexionar verbal e nominalmente as palavras. Esta síndrome apresenta muitas heterogeneidades entre as crianças; na síndrome sintático-pragmático a sintaxe é gravemente desestruturada, porém, a fonologia é normal ou quase normal, o uso da linguagem é limitado.

Possui dificuldades em formular e responder questões abertas de maneira apropriada; a síndrome semântico-pragmática, o problema está na compreensão do que se fala, na adequação à situação de comunicação.

Pode ser encontrada em crianças que não apresentam disfunções cerebrais, mais também em crianças hidrocéfalas. As crianças tomam iniciativa dos temas abordados, não levam em conta as respostas dos adultos, e às vezes, nem esperam uma resposta, enfim esta síndrome trata de uma disfunção comunicacional.

Quando falamos em disfasias variáveis estamos referindo-nos que é possível encontrar aspectos gerais que denotam certa homogeneidade entre os casos de uma mesma síndrome, embora que as crianças sejam diferentes umas das outras quanto aos seus problemas, mesmo que, em uma mesma síndrome. Manifestam-se indispensável uma avaliação clínica regular para observar-se a evolução da criança, sempre se levando em conta as situações de enunciação.
Disgrafia e disortografia: duas dificuldades

A escrita vem acompanhando o homem em seu processo de evolução desde quando este percebeu pela primeira vez que poderia gravar transformar em figuras tudo aquilo que pertencia a ele e ao meio em que se encontrava. O homem passou a desenhar nas paredes de sua caverna suas práticas, animais, objetos, seus hábitos...
Na evolução da história, o homempercebeu que idéias poderiam ser transformadas em símbolos. Cada figura que ali estava não era um simples conjunto de traços criado pelos seus dedos; aquilo, na verdade, carregava em si significados que para ele era de inquestionável importância. “Esses desenhos, as pinturas, rupestres, são relativamente complexas; as informações são numerosas e muitas vezes não unívocas; sua decodificação precisa contar com uma referencia a cultura do escritor”. (HOUT& ESTIENE, :28).
Depois de um longo processo de evolução, a escrita chega ao que conhecemos hoje, onde ela cumpre a junção de representar graficamente o que é produzido fonologicamente. Nessa etapa, a escrita assume um papel de importância infinita, onde o homem vai encontrar nela caminhos acesso e transmissão de sua cultura e a de outros. Será ela o veiculo condutor de conhecimentos e de todos que a conhecem se utilizarão de seus serviços tanto como emissor, como receptor de muitos conteúdos.
Mas a discussão que será trabalhada nas paginas posteriores deste trabalho não ira se preocupar com esse aspecto evolutivo e utilitário da escrita. Esse breve comentário anterior seria, para nos, uma forma bem interessante de situar em que campo tão extenso e rico nosso estudo será desenvolvido. O que foi exposto no parágrafo anterior tenta na verdade, resumir a dimensão do universo variado e complexo de onde nossa discussão captura algo agregado a ele e tentar debater um pouco a seu respeito. Pois é só fazendo esses prévios comentários que evidenciamos o valor do tema que abordará nossa discussão.
É comum observar em alunos de séries iniciais uma imensa variedade incorreções na escrita; escrever é, muitas vezes, um de seus maiores pontos fracos. E, com isso, pergunta-se: Todos eles apresentam disgrafia? Bem... Se seguíssemos a definição proposta anteriormente, com certeza todos seriam denominados digráficos. Mas acontece que a disgrafia, em sua essência possui características próprias que a diferencia de qualquer outra dificuldade na escrita.
Na verdade as principais características que diferencia a disgrafia de uma simples dificuldade de escrita são os fatores que associam cada uma. Segundo Garcia Sanches, a disgrafia é uma dificuldade no desenvolvimento da escrita, mas só se classifica como o tal quando, por exemplo, a qualidade de produção escrita mostra se muito inferior ao nível intelectual de quem a produz. Nas outras dificuldades a escrita ruim vem associada a um baixo nível intelectual. Alem disso, Garcia Sanches afirma que a disgrafia apresenta-se geralmente com outras alterações superpostas como os transtornos no desenvolvimento da leitura, transtorno no desenvolvimento da linguagem, transtorno no desenvolvimento matemático, transtorno de habilidades motoras e transtorno de conduta de tipo desorganizado.
No entanto, sejamos francos, mesmo contendo elementos que diferencia outras dificuldades, a disgrafia não é algo que se perceba com facilidade dentro do ambiente escolar. Uma pessoa que não esteja previamente preparado e qualificado dificilmente será capaz de perceber a disgrafia. E ai necessariamente volta àquela discussão: Há pessoas hoje atuando na área educacional que desconhecem ou sabem muito pouco sobre disgrafia! Mesmo trabalhando por vários anos no ensino de crianças, vários de nossos atuais educadores nem se quer ouviram falar dessa denominação.

O que vemos é que há uma maior atenção em relação a disgrafia em cursos universitários de formação de educadores. Mesmo assim, esses estudos, quando são tratados, se baseiam apenas no conhecimento teórico e não há um grande incentivo para que haja uma extensão desses estudos nas nossas escolas.

É provável que muitos alunos que apresentem esse problema estão condenados a sofrer as conseqüências da disgrafia, por não estarem recebendo acompanhamento especifico e necessário para o problema.

Por uma criança apresentar dificuldades em desenvolver habilidades relacionadas á escrita, não implica dizer que ela; de fato, tem disgrafia, pois para realizar tal diagnostico é preciso antes, atentar para a escolarização insuficiente, alteração neurológica, enfim, precisam-se observar vários fatores que podem se confundir com disgrafia.

Segundo Garcia(1998: p.198), “ uma dificuldade típica observadas na disgrafia ou dificuldades de aprendizagem da escrita é a escrita é a escrita em espelho”. Aqui, o autor explica que devido os digráficos não possuírem uma representação dos traços que compõem os grafemas, eles fazem uma confusão entre as letras p,q,d e b; a pessoa sabe que existe um traço em forma de linha vertical e outro em forma de semicírculo, porem, ela não sabe qual é a posição correta dos traços; o que vem antes e o que vem depois.


Ao mesmo tempo, as afirmações de Garcia entram em contraposição ás idéias de Shaywitz (2006:87), cujo mesmo afirma que “Um dos mais duradouros equívocos é o que a criança disléxica vê as letras e as palavras de trás para frente e que escreve de maneira invertida é um sinal disso. (...) Outro equivoco parecido é escrever como de tivesse diante de um espelho, o que acompanha a dislexia”. Aqui, o autor afirma que escrever de trás para frente, é um procedimento comum nas primeiras etapas do processo de desenvolvimento da escrita entre crianças disléxicas e não disléxica.

O atraso na escrita pode se manifestar na construção sintática que ocorre quando, na escrita, a criança utiliza uma linguagem pobre de elementos gramaticais ou com gírias, ou mesmo com dialetos (Variedade regional de uma língua).

Segundo Condemarim e Medina (2005:67), “ as excessivas correções ortográficas acabam levando o aluno a empobrecer seus escritos para evitar correr o risco de cometer muitos erros que serão sancionados pelo professor”,
É frisado aqui um fato comum em avaliações de todos, pois, por tradição, a escola sempre considera a ortografia como algo primordial para qual devem ser voltados todas as atenções na hora de avaliar os textos escritos por alunos. Porem, deve-se saber que quando é dada relevante importância especialmente para erros ortográficos; acaba-se gerando um constrangimento entre o aluno e a sua produção escrita. Essas correções excessivas fazem com que o aluno empobreça seus textos, limitando sua capacidade de escrever por medo de cometer muitos erros ortográficos.

Uma criança pode ler desenvolvidamente bem, e não apresenta a mesma capacidade na escrita tendo dificuldade de organizar idéias para montar um texto; ou mesmo cometer muitos erros ortográficos, como também pode ocorrer o contrario; ela escreve bem, mas não se expressa oralmente; se sente insegura, deixando escapar as idéias de seu pensamento. Trata-se, muitas vezes, de habilidades, pois uns são aptos a escrever, e outros a ler, ou se expressar espontaneamente. É preciso criar mecanismos que ampliem essas habilidades; procurando, ao mesmo tempo, desenvolver as outras que ainda precisam ser trabalhadas.

Normalmente, as disgrafia estão associadas às dislexias, uma vez que na maioria dos casos, as pessoas que tem dificuldade em ler, também sentem igual dificuldade para escrever. As disgrafias são caracterizadas por falhas na organização da mensagem, sendo que a pessoa disgráfica sente dificuldade em planejar idéias para construir seus escritos. E a outra característica é a apresentação de problemas relativos á construção da estrutura sintática que se dá quando a pessoa elabora frases sem nexo, incoerentes.

Para Garcia (1998), outro ponto que evidencia a disgrafia é o intercambio de letras que é a inversão feita entre as letras no contexto da palavra. Um exemplo dado pela autora é a palavra sol, cuja mesma é escrita por um disgráfico como los; ou seja, a pessoa sabe que a palavra é composta pelas letras l,s,o,porem, ela não sabe qual é a ordem exata na qual as letras devem ser postas para que a palavra tenha sentido.

As dificuldades nos processos motores podem se dar em três tipos: alógrafos que ocorre quando a criança coloca letras maiúsculas entre minúsculas e/ou vice –versa, acrescenta letras onde não existe, ou não as coloca onde deveriam existir; Nos padrões motores gráficos ( característica das agrafias periféricas), quando coloca grafemas excessivamente grandes ou pequenos causando uma desproporção entre as letras; e por ultimo, vem a organização geral, é quando a criança faz um amontoado de letras e/ou palavras e, ao mesmo tempo, deixa distanciais entre as mesmas e desrespeita as margens.

Serão consideradas aqui três etapas postuladas por Frith (1985) apud Hout e Estienne (2001) que caracterizam a aquisição da linguagem: as estratégias logogríficas, alfabéticas e ortográficas.
Estratégia logograficas: é o reconhecimento rápido das palavras. A criança associa novas palavras ás que já fazem parte do seu vocabulário.
Estratégia alfabética: Aqui a criança passa a amadurecer sua consciência e percebe que as palavras são seqüências que devem ser decoradas. Ela aprende a reconhecer as palavras pelo contexto; fazendo uma analise semântica, ou seja, atribuindo-lhes significado.
“Estudos recentes demonstram que a dislexia não só está presente em muitas famílias, como também é algo genético”. (Shaywitz, 2006:87)
A dislexia pode, muitas vezes, ser um problema genético; comumente; certas famílias apresentam um parente disléxico e por isso, uma criança que faz parte dessa família deve ser monitorada para que sejam percebidos sinais de dificuldades em sua linguagem.
Para Condemarin (2005:64) “ aprender a escrever implica aprender a antecipar o texto; a produzi-lo, a controlar sua escrita, a relê-lo e reescrevê-lo”.Antes de tudo; escrever ou produzir um texto, é uma forma de comunicação; assim, é necessário, antes de tudo, que se organize o escrito, pensar qual o tipo de publico que se deseja atingir, para que dessa forma possa ser utilizada, no texto, a linguagem adequada (informal, formal, cientifica). O planejamento se torna fundamental; pois é necessário escrever com coerência; por fim, é necessário fazer uma exploração e em seguida, reescrevê-lo.
O processo de aprendizagem da escrita envolve complexidades de memória, planejamento da mensagem, processo de sintaxe, de construção de frase, as palavras e seus significados a serem postos na frase, o léxico e os processos motores da escrita. Segundo Medina (2005, p.63)”A aprendizagem da escrita ou produção textual requer a avaliação autentica como uma atividade fundamental do processo de aprendizagem.

Escrever um texto ou produzi-lo, é um ato fundamentalmente comunicativo. Codemarin e Medina (2005). Ao escrever se possibilita o ato de comunicar-se com o mundo, o ato escrito é fundamental, mas nem sempre este ato se dá de forma correta, sem dificuldade por parte da pessoa que vaia comunicar algo através da escrita, pois ela envolve muitos processos de desenvolvimento que muitas vezes algumas pessoas não tem capacidade de possuí-las com perfeição de funcionamento.

“Ao se pensar em escrever um texto, deve-se ter em mente, inicialmente, o planejamento daquilo que se vai escrever, da mensagem a ser passada. Subprocessos de geração de idéias e hipótese, de organização de idéias e de revisão da mensagem!”. (Garcia, 1998).

“Antes de escrever algo de faz necessário saber o que se vai escrever, esses processos são os que consomem mais tempo nas tarefas de escrita (...)
(Garcia,1998). Envolvem-se, portanto as idéias que vão se fazer presentes no texto, portanto uma busca de informação contida na memória, envolvendo os acontecimentos da vida e as informações armazenadas.

“A aprendizagem da escrita se faz através da denominação com habilidade e de forma integrado os processos de planejamento, os processos semânticos, os processos motores”.(Garcia, 1998). Os processos de planejamento que vão envolver, como já foi dito, a geração de idéias, para que se componha a mensagem a ser escrita; os processos sintáticos, que correspondem a estrutura de organização dos elementos na frase; os processos semânticos, que se referem a significação das palavras; processos motores, que correspondem a forma como será transcrita a palavra.

Relacionado ao diagnostico das dificuldades de aprendizagem da escrita, não se deve pensar que uma das causas dessa dificuldade seja uma inteligência baixa, sendo que o que mais vai interessar é o tipo e a quantidade de erros. O que deve importar é a quantidade de testes de leitura, etc. Os testes de leitura (precisão, fluência e compreensão), ortografia e linguagem apresentam o grupo principal para o diagnostico da dislexia na criança. (SHAYWITZ,2006).

Ao se pensar em escrever um texto, se deve planejar o que se vai escrever, o conteúdo da escrita, quais as informações que irão ser transmitidas. Esse planejamento irá envolver a memória de pessoa, a organização do texto de maneira que se entenda a mensagem que se quer passar a revisão do texto, podendo fazer as devidas correções. Com relação ao planejamento ainda o tipo de texto a ser desenvolvido; o conteúdo que envolve informar, argumentar; considerar o destinatário do texto. (Codemarin e Medina, 2005)

Relacionando se com o papel da revisão do texto, nos aspectos ortográficos, Groupe (1991) considera que: “A ortografia não constitui um aspecto separado do conjunto do texto; ao contrário, para que os alunos avancem em suas competências ortográficas, é necessário que considerem o conjunto do que escrevem”. É importante destacar que o professor, ao corrigir o texto, não deve dar tanta importância aos erros ortográficos, sendo que o mais significante a se considerar é o conteúdo a informação, a mensagem.

Ao se escrever um texto tem que se considerar também a parte da sintaxe, em que se deve construir a frase, com certa ordem de palavras, com os devidos sinais de pontuações. Também, no ato da escrita, o léxico que se refere as palavras e seus significados, é uma ferramenta importante, e só que se refere as dificuldades de escrever, para testar a capacidade de se escrever as palavras e as referencias de seus significados.

A aprendizagem da escrita é muito complexa, pois envolve aprendizagem de várias habilidades que nem sempre são desenvolvidas por todas as crianças, e que sem esse processo, há um surgimento de enumeras dificuldades e dentro dessas, é preciso que haja constante intervenções, avaliações, para que se possa diagnosticar e formular um tratamento adequado ao processo da escrita e para que a criança não se sinta excluída dos outros que não se dispõem desse déficit.

Sugestões de leitura para aprofundamento:

-GARCIA, Jesus Nicácio. Manual de dificuldades de aprendizagem: linguagem, leitura, escrita e matemática. Tradução de Jussara Houbert Rodrigues. Porto alegre; Artes médicas, 1998.
-Hout, Anne Van; ESTIENNE, Françoise. Dislexias: discrição, avaliação, explicação, tratamento. Tradução de Claudia Schilling. Porto Alegre: Artimed, 2001.
-SHAYWITZ, Sally. Entendendo a dislexia: um novo e completo programa para todos os níveis de problema de leitura. Porto Alegre: Artimed, 2006.
-CONDEMARIN, Mabel, MEDINA, Alejandra. Avaliação autentica: Um meio para melhorar as competências em linguagem e comunicação. Porto Alegre, Artimed, 2005.

Observação: Na Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, há um grupo e estudos sobre dislexia, disgrafia e disortografia. Esta seção contou com a colaboração preciosa dos alunos-pesquisadores Marcos Vasconcelos Diogo,Licilange Alvs,, Maria Meiriane Freire Aguiar, do curso de Letras da referida Universidade.

SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS


1. ALLIENDE, Felipe, CONDEMARÍN, Mabel.Leitura: teoria, avaliação e desenvolvimento. Tradução de José Cláudio de Almeida Abreu. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987.
2. COLOMER, Teresa e CAMPS, Anna. Ensinar a ler, ensinar a compreender. Tradução de Fátima Murad. Porto Alegre: Artmed, 2002. pp. 59-88 e 120-169.
3. CONDEMARÍN, Mabel e BLOMQUIST, Marlys. Dislexia: manual de leitura corretiva. Tradução de Ana Maria Netto Machado. 3ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989. pp. 21-139.
4. CONDEMARÍN, Mabel e MEDINA, Alejandra. Avaliação autêntica: um meio para melhorar as competências em linguagem e comunicação. Tradução de Fátima Murad. Porto Alegre: Artmed, 2005. pp. 49-63. COLOMER, Teresa e CAMPS, Anna. Ensinar a ler, ensinar a compreender. Tradução de Fátima Murad. Porto Alegre: Artmed, 2002. pp. 59-88 e 120-169.
5. CONDEMARÍN, Mabel, BLOMQUIST, Marlys. (1989). Dislexia; manual de leitura corretiva. 3ª ed. Tradução de Ana Maria Netto Machado. Porto Alegre: Artes Médicas.
6. DUBOIS, Jean et alii. Dicionário de lingüística. SP: Cultrix, 1993.ELLIS, Andrew W. Leitura, escrita e dislexia: uma análise cognitiva. 2 ed. Tradução de Dayse Batista. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
7. GARCÍA, Jesus Nicasio.Manual de dificuldades de aprendizagem: linguagem, leitura, escrita e matemática. Tradução de Jussara Haubert Rodrigues. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.
8. HOUT, Anne Van, SESTIENNE, Francoise. Dislexias: descrição, avaliação, explicação e tratamento. 2ª ed. Tradução de Cláudia Schilling. Porto Alegre: Artes Médicas, 2001.
9. MARTINS, Vicente. A dislexia em sala de aula. In PINTO, Maria Alice Leite. Psicopedagogia: diversas faces, múltiplos olhares. São Paulo: Olho d’Água, 2003. pp. 74 a 86.
10. SNOWLING, Margaret e STACKHOUSE, Joy (orgs). Dislexia, fala e linguagem: um manual do profissional. Tradução de Magda França Lopes. Porto Alegre: Artmed, 2004.
11. SOPO: Fábulas completas. Tradução direta do grego, introdução e notas por Neide Cupertino de Castro Smolka. São Paulo: Moderma, 1994. pp.10-29
12. STERNBERG, Robert J. e GRIGORENKO, Elena L. Crianças rotuladas: o que é necessário saber sobre as dificuldades de aprendizagem. Tradução de Magda França Lopes. Porto Alegre: Artmed, 2003. pp. 97-115.
13. HARRIS, Theodore L e HODGES, Richard E. Dicionário de alfabetização: vocabulário de leitura e escrita. Tradução de Beatriz Viégas-Faria. Porto Alegre: Artmed, 1999.
SUGESTÕES WEBLIOGRÁFICAS

1. ZORZI, Jaime Luiz et ali. "A influência do perfil de leitor nas habilidades ortográficas". Disponível em Internet: http://www.cefac.br/library/artigos/9ac5bcbbebadbc2160e2c7869d4890b7.pdf
2. ZORZI, Jaime Luiz. "As inversões de letras na escrita o "fantasma" do espelhamento". Disponível na http://www.cefac.br/library/artigos/3c269d1d920ea45f9274741052c717a4.pdf
3. Zorzi, Jaime Luiz. "As trocas surdas sonoras no contexto das alterações ortográficas". Disponível em Internet http://www.cefac.br/library/artigos/84be6bc992b278e8e958a7523bb43ff1.pdf
4. ZORZI, Jaime Luiz. "Una secuencia de apropiacion de la ortografía del portugués". Disponível na Internet: http://www.cefac.br/library/artigos/2b91dd8f0dbf2cd057e64d3405246a47.pdf









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